Há 46 anos, o regime
militar instaurado pelo golpe de 1964 detectava o primeiro sinal de
insurgência com a descoberta de um movimento de guerrilha numa das
maiores serras das Gerais

A gestação da primeira ação armada contra a ditadura começou nos próprios quartéis, logo nas semanas seguintes ao golpe, quando cerca de 1 mil militares, acusados de subversão, foram expulsos do Exército, Marinha e Aeronáutica. Muitos deles haviam apoiado a posse de João Goulart, vice-presidente de Jânio Quadros, em 1961, depois que o presidente renunciou, o que gerou insatisfação de alguns setores das Forças Armadas. Depois de 1964, as divergências internas seriam punidas com expulsões e prisões. Foram esses sargentos e marinheiros que perderam seus empregos e sofreram com a linha-dura dos novos líderes do Brasil os primeiros a se organizar para denunciar o autoritarismo do regime.

A partir do segundo semestre de 1966, guerrilheiros foram chegando de vários estados, em pequenos grupos ou individualmente, cada um levando o armamento possível. A primeira tarefa era fazer reconhecimento da região, trançando os melhores pontos para montar guardas, e fazendo contato com moradores da região, na tentativa de ganhar apoio para a causa. No entanto, ao contrário do plano traçado, a participação da população da região não ocorreu e a movimentação dos guerrilheiros acabou gerando curiosidade e desconfiança sobre o que se passava por ali.
O dinheiro que vinha de Cuba parou de chegar e a dificuldade de levar a ação adiante ficou cada vez mais clara para o grupo, que enfrentava também a presença de ratos nos depósitos de comida. Os alimentos ficavam contaminados e as doenças começaram a se espalhar entre os guerrilheiros. Aos poucos a resistência seria minada, com alguns homens desistindo da luta e outros sem condições físicas de manter seus postos. As prisões começaram em março, quando dois insurgentes foram presos na tentativa de embarcar em um trem em Espera Feliz, nos sopé do Caparaó. Cercada pela Polícia Militar de Minas, que já acompanhava a movimentação do grupo, a dupla foi presa e entregue ao Exército (4ª Região Militar), em Juiz de Fora.
No final de março, as forças de segurança já tinham identificado o acampamento da guerrilha e poucos remanescentes tentaram reagir – houve até troca da tiros com a polícia –, mas sem representar grande resistência. Alguns que conseguiram fugir da serra – em número não confirmado pelos registros oficiais – foram presos às margens da BR-116 e também levados para o presídio de Linhares, em Juiz de Fora.
O contragolpe do regime militar contou com um grande efetivo. Nos dias seguintes, mais de 3 mil homens foram enviados à região à procura de guerrilheiros que poderiam ter ficado no Caparaó. Helicópteros fizeram bombardeios e dezenas de civis, principalmente na região de Manhumirim, nos arrabaldes da serra, também foram detidos, acusados de ter colaborado com os “bandoleiros ladrões de gado”. O primeiro ato contra o regime militar acabou antes mesmo de ter sido colocado em prática efetivamente, mas a mensagem de insatisfação contra a ditadura serviu de exemplo para grupos que passaram a surgir no final da década de 1960, e até o retorno da democracia deixaram claro que o autoritarismo dos quartéis não passaria em branco.
Constatando o fracasso do levante – “vencido pelos ratos, antes do combate com as tropas” –, o escritor mineiro não deixa de valorizar a tentativa: “Aqueles camaradas magros, barbudos, enfraquecidos, que desciam da montanha e se esgueiravam entre sombras, intrigavam os moradores das margens do Manhuaçu. Até a polícia acorda nessas ocasiões. E polícia acordando, o Exército vai ver o que é que há. Foi. Os guerrilheiros presos, e a Serra do Caparaó, ao que tudo indica, não será mais agora-outrora uma versão mineira de Sierra Maestra. Mas aconteceu. Esse nome de guerrilheiros soa a nossos ouvidos com um timbre de herói moderno, que às vezes tem sorte, e muitas outras entra pelo cano. Mas, sem dúvida impressiona mais do que o guerreiro, tão velho e gasto este último que até o Ministério da Guerra mudou de nome, pela reforma administrativa”, finaliza Drummond.
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